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Teresina, PI
Sexta, 21
Setembro de 2018

10/02/2018 - 23h02min

A folia politizada

A realidade se impôs sobre a imaginação no carnaval deste ano. Desde 1989, quando a Beija-Flor de Nilópolis desfilou, no Rio, com seus “Ratos e urubus: larguem a minha fantasia” e um Cristo censurado, não se anunciava uma festa como essa, tão orientada para denunciar as grandes mazelas nacionais, como a miséria e a corrupção e para avançar, no ritmo do samba, nas referências ao atribulado momento político. O que se verifica neste ano é que a crítica social se aprofundou, assim como a consciência da crise moral que assola o país. A folia se politizou. No Rio de Janeiro, os protestos sociais aparecem em pelo menos três escolas de samba, que se sobressaem por apresentar enredos com questionamentos ao difícil momento nacional: Beija-Flor, Estação Primeira da Mangueira e Paraíso do Tuiuti. Em São Paulo, a Império da Casa Verde, com seu enredo baseado em “Os Miseráveis”, livro de Victor Hugo, destaca a luta contra a corrupção e os privilégios restritos a uma pequena parcela da população. Também os blocos enchem as ruas cariocas e paulistanas de gritos de guerra contra o cerceamento da liberdade, a volta da febre amarela, os auxílios dados aos juízes, a intolerância religiosa e de gênero e o preconceito racial.

Fundada há 90 anos, a Estação Primeira de Mangueira, estréia, em 2018, no quesito samba politizado com o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” — e o alvo principal é o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. “O momento político que o Brasil vive é muito delicado. Há uma influência da onda conservadora que extrapola a cultura da sociedade”, afirma o carnavalesco Leandro Vieira. “A chegada do prefeito Crivella ao Rio de Janeiro é isso. Ele representa o avanço da mistura explosiva entre política e religião, é o prefeito de uma cidade que tem uma festa libertária que ele não gosta.” O pomo da discórdia entre a Mangueira e Crivella é o corte das verbas destinadas às escolas de samba do Rio no carnaval deste ano.

Segundo Vieira, o prefeito tentou justificar a medida com o argumento de que o dinheiro seria destinado para as creches municipais, o que revela uma visão errada do carnaval, que além de representar a cultura popular é uma enorme fonte de receitas para a cidade do Rio. “O enredo da Mangueira é um tributo à cidade, à sua essência festiva, seu caráter plural, mundano e livre. A Mangueira veio dizer que a rua é do povo e nosso enredo é um tributo à liberdade — tudo o que o prefeito não quer”, diz Vieira.


O tom mais politizado e crítico dos desfiles deste ano, na avaliação dos próprios carnavalescos, tem relação com a renovação do público da festa, que busca uma maior conexão com o mundo real. Com seu enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, a Beija-Flor pretende claramente atingir uma plateia mais jovem, que vai para o Sambódromo mas mal assiste aos desfiles porque não se interessa pelos temas apresentado pelas escolas. “Houve uma pasteurização do espetáculo que não gera atração”, afirma o coreógrafo Marcelo Missailidis, responsável pela concepção cênica da Beija-Flor. ”A preocupação de nosso enredo não foi só com o potencial cênico, mas também com um conteúdo que interesse.

Falamos das preocupações de hoje: medo de viver em cidade grande, falta de confiança nos representantes políticos, abandono, angústia da população em todas as camadas sociais.” Em outras palavras, o desfile da escola poderia ser considerado uma grande manifestação política com invólucro artístico. E qual o significado do rato gigante que aparece em um dos carros alegóricos? “É o maior símbolo de corrupção do Estado do Rio. O rato representa toda a imundície, a sujeira da política hoje em dia. Aquilo que corrói a ética. Percebemos hoje que as decisões políticas sempre foram rodeadas por corrupção e ganância”, afirma Missailidis.
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