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Teresina, PI
Terça, 18
Dezembro de 2018

06/03/2018 - 16h49min

Maconha medicinal

Epilético desde o nascimento e com paralisia cerebral, Guilherme Eduardo Parolini, 12 anos, esperou quase dois anos para usar um produto à base de canabidiol, substância encontrada na planta da maconha. Foi a alternativa encontrada pela família e pelo médico para aliviar suas fortes crises, que hoje aparecem com muito menos intensidade, segundo a mãe, Karla Eduardo Gurgel, 38 anos. Depois de pedir subsídio governamental e enfrentar um longo caminho de burocracias, a família decidiu arcar com as altas despesas e importou o Purodiol, produzido por uma empresa britânica que recentemente abriu representação no Brasil para facilitar a compra do produto. Com a intermediação, o remédio, produzido na Inglaterra, chega na porta da casa de Karla em sete dias. Atualmente há pelo menos 20 companhias que fazem esse trabalho de facilitação no País: dão orientação sobre os documentos necessários, organizam a burocracia junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e enviam os produtos. Uma grande evolução desde 2014, quando os primeiros pedidos para importação de um remédio à base de maconha chegaram até o governo. Naquela época, a regulamentação era inconsistente, a burocracia, grande, e o preconceito, maior ainda. Entre a compra e o recebimento se passava, pelo menos, um mês. Isso quando o medicamento não era retido na alfândega. Com o avanço da legislação, as empresas planejam vender os remédios nas farmácias brasileiras em 2019.

“Nos EUA, os produtos são vendidos como suplemento alimentar até em supermercados” Caroline Heinz, diretora de operações da HempMeds Brasil

Potencial Terapêutico

O canabidiol, também conhecido com CBD, é um dos 400 compostos encontrados na planta da maconha. Faz parte do grupo dos canabinóides, substâncias que encontram receptores no corpo humano. O CBD e o THC, ou tetrahidrocanabinol, são as duas principais e mais estudadas por causa de suas capacidades medicinais. Enquanto o primeiro é ansiolítico, o segundo é estimulante, e cada um é indicado para doenças ou sintomas específicos, como epilepsia refratária, mal de Parkinson e esclerose múltipla. Por isso, há a preocupação das empresas de isolar um ou outro de acordo com o caso. Em 2014, quando a Anvisa ainda estudava autorizar ou não a importação do remédio à base de CBD, um dos obstáculos se dava porque o produto em questão continha THC, que não época nem se cogitava ser liberado para uso medicinal. Atualmente, as duas substâncias são regulamentadas. “O THC e o canabidiol são dois canabinóides que, embora tenham uma estrutura química semelhante, podem apresentar efeitos diversos e, em alguns casos, até opostos. Assim, é importante que suas indicações e efeitos indesejados sejam estudados isoladamente”, afirma o professor da Universidade de São Paulo (USP) Antonio Waldo Zuardi, coordenador de pesquisas pioneiras sobre o potencial terapêutico dos canabinóides. No caso da epilepsia refratária, a indicação é que o paciente use apenas CBD, por isso os laboratórios fazem questão de esclarecer que a substância é isolada.

 

Para o farmacêutico Fabrício Pamplona, diretor de desenvolvimento de produtos à base de Cannabis na startup farmacêutica Entourage Phytolab, o trabalho das empresas estrangeiras foi e está sendo bastante importante para que mais pacientes tenham acesso aos medicamentos. Mas, avalia, é um mecanismo de curto prazo. “Foi ótimo por um momento, mas é passageiro. Esses compostos já podem ser produzidos no Brasil, já que há ‘know-how’ e pessoas capacitadas”, afirma. Os obstáculos para que os remédios com substâncias de maconha sejam produzidos no País são basicamente dois, e ambos resvalam no preconceito em torno da planta. Primeiro, há a burocracia para as pesquisas. Mesmo com documentos de instituições de ensino provando que plantas e compostos são importados para o trabalho científico, muitos produtos, até hoje, são retidos. “Ter acesso ao insumo sempre foi e continua sendo muito difícil”, diz Pamplona. Segundo, há resistência entre os próprios médicos, que temem ser julgados por prescreverem um remédio à base de uma droga proibida. “Muitos médicos já tem um padrão de trabalho e não querem se abrir ao novo. Percebemos que os jovens se mostram mais interessados”, afirma Caroline Heinz, diretora de operações da HempMeds Brasil. Morando na Califórnia, Estados Unidos, Caroline compara a situação de alguns estados americanos que já tem uma regulamentação mais avançada com o atual cenário brasileiro. “Ainda existe essa discussão de o que vai ser liberado e como vai liberar. Nos EUA o uso de CBD já existe há muito tempo e o mercado é gigante, os produtos são vendidos como suplemento alimentar e são encontrados até em supermercados.”


Eric Gay
Como é feito o remédio de CBD
O caminho do Purodiol, da plantação na Inglaterra a um laboratório na Áustria e a entrega no Brasil

> Plantação de maconha orgânica
A planta é cultivada em áreas próprias das empresas, devidamente regulamentadas. No caso do Purodiol, fica na Inglaterra

> Refinamento
O extrato bruto da maconha é enviado a um laboratório que faz a purificação: o THC, substância estimulante, é separado do composto, que termina o processo com 99,5% de CBD. Os outros 0,5% são substâncias variadas

> Purificação
A partir desse novo extrato é produzido um pó amarelado e cristalino, que é enviado para outro laboratório na Áustria

> Óleo de milho
O pó é dissolvido em óleo de milho de uso farmacêutico. Depois disso, é envasado e, de volta à Inglaterra, é exportado para todo o mundo. No Brasil, o processo de compra e entrega leva cerca de sete dias
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