Jogo Aberto - Noticias - O mais fiel retrato de Madalena

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Teresina, PI
Domingo, 19
Agosto de 2018

10/03/2018 - 20h38min

O mais fiel retrato de Madalena

Maria Madalena nunca foi prostituta. Esse título surgiu no século VI durante um sermão do papa Gregório Magno ao tentar convencer os fiéis que o arrependimento era condição para a remissão dos pecados, como teria acontecido com ela. Nascia ali uma lenda que percorreu a história. Mais de mil anos depois, essa imagem permanece – embora rivalize com outras versões sobre quem foi Madalena. Esposa de Jesus? Essa hipótese está em um evangelho não reconhecido pela Igreja Católica que afirma ter havido ao menos um beijo entre eles. Nem o documento é validado nem deixa claro se houve relacionamento amoroso. Quem de fato ela foi: discípula de Cristo, uma das pessoas que proviam seu sustento, santa e, desde 2016, considerada pelo papa Francisco como “apóstola dos apóstolos”. Sua verdadeira história se perdeu em uma miscelânea de representações que ao longo do tempo misturaram cânones, teorias da conspiração e charlatanismo, dependendo do interesse de cada um e de sua época. À luz do movimento feminista contemporâneo, revisitar a personagem significa tirar dela as alcunhas equivocadas, mostrar sua importância histórica e religiosa e falar de machismo e do papel da mulher na Igreja.

É a essa tarefa que se propõem duas novas obras, um livro e um filme, cujos títulos levam seu nome e que serão lançados na quinta-feira 15. “A imagem dela como uma prostituta arrependida é uma criação deliberada da Igreja, feita para minimizar o poder e o mistério que ela ganhou através de seu relacionamento espiritualmente íntimo com Jesus. Sua comunhão direta com o divino ameaçou a estrutura apostólica”, afirma o historiador britânico Michael Haag, autor do novo livro “Maria Madalena – Da Bíblia ao Código Da Vinci: companheira de Jesus, deusa, prostituta, ícone feminista” (ed. Zahar).

Pecadora arrependida


Chamada de Madalena por ser da região de Magdala, na Galileia, norte de Israel, seu nome é citado pela primeira vez na Bíblia no capítulo oito do evangelho de Lucas. A lenda da prostituta começa aí. “De quem haviam saído sete demônios”, diz o texto, referindo-se a ela. Segundo a biblista Zenilda Luzia Petry, não se sabe ao certo o que essa passagem significa, mas o número sete é simbólico. “Representa totalidade. Talvez essa mulher fosse uma pessoa muito sofrida, possuía a totalidade de males. Recuperou-se e se libertou de seus demônios no encontro com Jesus”, diz. Para a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (Soter) e autora de um livro no prelo sobre a personagem, é uma metáfora para o que ela chama de metanoia, uma transformação espiritual. “Ela vivia uma busca por sentido em sua vida. É como se Jesus tivesse se sentido compreendido.” Porém, a palavra “demônios” e a proximidade do trecho com outro do capítulo anterior, em que se fala de “uma mulher da cidade, uma pecadora” – uma prostituta –, deu brecha à interpretação feita pelos próprios católicos de que ambas eram a mesma pessoa.

A confusão foi institucionalizada no ano de 591, quando o papa Gregório Magno afirmou que a pecadora é Madalena. Também disse ser ela outra Maria, irmã de Lázaro, o que não é comprovado. Wilma De Tommaso defende o papa Gregório: “Era uma época em que as pessoas tinham muito medo do inferno e se martirizavam. Por misericórdia, ele falou que ela pecou muito, mas foi perdoada, para dar o exemplo”, afirma. “A imagem da prostitua arrependida foi sendo historicamente construída a partir dessa homilia”, afirma André Chevitarese, especialista em história da religião e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Com o tempo, ganhou contornos de verdade. É como se a pessoa acreditasse haver na Bíblia dados que nunca estiveram lá.” Para a pesquisadora Juliana Cavalcanti, também da UFRJ, que estuda as mulheres no catolicismo, ao reduzir Madalena à figura de prostituta, a Igreja acabou também colocando outras protagonistas femininas para “debaixo do tapete”, pois ela era uma peça chave que simboliza um conjunto de grandes personagens ocupando o papel de apóstolas. Elas, inclusive, bancavam as viagens de Jesus, segundo a Bíblia. “A insistência nessa história encerra também toda a possibilidade de mulheres ocuparem cargos dentro da Igreja.”

“Ela é vista como uma vítima da Igreja. Mas acho que ela foi mais vítima por causa da sua intimidade espiritual com Jesus”
Michael Haag, autor de “Maria Madalena”
Isto e 

18/08/2018 - 08h22min
Com fé, sem vício