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Teresina, PI
Terça, 20
Novembro de 2018

18/08/2018 - 08h08min

Revista isto é destaca: A eleição das

Integrante do Parlamento Inglês e liberal empedernido, John Stuart Mill tornou-se o primeiro político a defender, no longínquo ano de 1860, o direito da mulher ao voto. Mas à época, por razões sobejamente conhecidas hoje, não conseguiu superar uma maioria resistente: uma petição de sua autoria foi derrotada por 194 a 73 — um massacre. O principal argumento contrário ao voto de mulheres era de que as casadas não expressariam uma voz diferente da de seus maridos, o que geraria duplicidade de votos. Hoje, dois séculos depois do debate suscitado por Mill e 72 anos após a Constituição brasileira garantir a obrigatoriedade plena do voto para as mulheres nos mesmos termos exigidos aos homens, o cenário é diametralmente oposto: são elas que exercem influência direta sobre as escolhas dos maridos e da família. Daí o poder das mulheres nas eleições deste ano. Não por acaso, dos 13 aspirantes ao Planalto, cinco escolheram mulheres como vices na chapa. O objetivo não é outro senão tornar o candidato à Presidência mais palatável ao eleitorado feminino, hoje majoritário — 52,5% do total de eleitores. Dos 147,3 milhões de cidadãos aptos a votar nas próximas eleições, 77,3 milhões são mulheres.

O voto da mulher embute uma característica bem particular. É cristalizado na reta final da campanha, portanto é mais cuidadoso e dotado de cores mais racionais, que fazem com que uma gama variada de aspectos envolvendo os candidatos seja minuciosamente ponderada. “Historicamente, as mulheres aguardam que o quadro de informações das campanhas esteja mais completo, e só se interessam mais fortemente pelas eleições quando o horário eleitoral gratuito começa e os debates entre os candidatos são realizados. Mais ainda, as eleitoras ficam na expectativa de algo que afete diretamente a vida da população, como propostas para a saúde, educação, desemprego e segurança”, afirma Fátima Pacheco Jordão, socióloga e autora de um amplo estudo sobre o poder do voto feminino. A atriz Thays Beltrami, 26 anos, encaixa-se neste perfil. “Só votaria em alguém que assinasse um documento se comprometendo com suas promessas.”

Os números são eloqüentes. Nada menos que 80% das mulheres ainda não se definiram (54% estão indecisas e 26% declararam voto branco ou nulo), de acordo com as pesquisas. Entre os homens, o índice é de 58%. Ou seja, a mais imponderável disputa eleitoral desde a redemocratização terá seu desfecho quando as mulheres escolherem em qual candidato depositarão suas esperanças para comandar o País. A porcentagem nunca foi tão elevada. Em agosto de 2014, as indecisas somavam 72%. Em 2006, 49%. Os dados são de pesquisa do Instituto Datafolha feita em junho. Na quarta-feira 15, a divulgação do levantamento da Paraná Pesquisas confirmou a diferença de intenção de votos entre a população feminina e masculina. Em pesquisa estimulada sem o ex-presidente Lula na disputa, 27% das mulheres não tinham candidato, contra 18,8% entre os homens. Os números configuram um cenário novo. “É a primeira vez que se dá a medida do peso do eleitorado feminino no País”, afirma a historiadora Teresa Cristina Marques, da Universidade de Brasília e autora do livro “O voto feminino no Brasil”, lançado em março.

Mais cautelosas

As razões que explicam uma discrepância tão grande têm origem em circunstâncias históricas e guardam relação com o contexto atual do País. O voto feminino no Brasil só foi assegurado sem qualquer tipo de restrição pela Constituição de 1946, dezoito anos depois de a potiguar Celina Viana se transformar na primeira brasileira a ter direito de votar graças à uma lei estadual de autoria do então governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine. Entre o voto de Celina e o direito pleno de sufragar sucederam-se legislações que permitiam a ida das mulheres às urnas, mas dentro de várias condições. Em 1932, por exemplo, o Código Eleitoral previa o direito de escolher somente às mulheres casadas, com autorização dos maridos, e às solteiras e viúvas com renda própria.

As oportunidades desiguais no acesso às urnas ajudam a explicar o fato de as mulheres, ao longo do tempo, serem mais cautelosas na escolha. O momento atual do País, imerso em uma crise política, ética e econômica, também influencia as diferenças na percepção do que desejam homens e mulheres. É consenso entre ambos os gêneros: a corrupção é um dos maiores problemas do Brasil. Não seria diferente após quatro anos de Operação Lava Jato e suas evidências dos prejuízos impostos ao País. Mas enquanto para eles a moralização da administração pública deve ser prioridade, segundo pesquisa do Ibope e Confederação Nacional da Indústria, para elas os alvos devem estar associados à solução de problemas do dia a dia. De acordo com o Datafolha, por exemplo, 46% das entrevistadas afirmaram que o presidente deve priorizar a saúde e 18%, a educação. “Elas lidam com demandas mais difíceis de a administração pública responder com eficácia”, afirma Fátima Jordão.

A crise financeira tornou a necessidade de atendimento pelo Estado mais aguda, com a urgência de tratamento em hospitais públicos ou de mais vagas em creches e escolas. “As mulheres foram as mais prejudicadas com os cortes”, afirma a cientista política Hannah Maruci, do Grupo de Estudos de Gênero e Política da Universidade de São Paulo. Outra demanda própria do público feminino é o combate à violência, especialmente a doméstica. “Só votaria em um candidato com pautas concretas nas áreas básicas necessárias para viver com dignidade, como segurança para a mulher”, diz Júlia do Nascimento, 20 anos, estudante e operadora de telemarketing. Sem atender a anseios como esses, os candidatos vão falar ao vento. “Não há mais espaço para políticas generalistas”, diz Hannah.

Reconhecer o protagonismo da mulher na eleição significa conseguir os votos não apenas delas, mas deles também. E aqui está uma virada histórica no comportamento das sociedades. “O eleitorado feminino inicia tendências que são acompanhadas pelos homens”, atesta Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. A maioria dos candidatos já percebeu isso ao escolher mulheres como suas vices, o que tornou estas eleições a com maior número de postulantes ao cargo. Em 2014, foram três candidatas a vice para 11 candidatos. Todas de nomes de menor importância na disputa. E uma concorrente à Presidência, que acabou reeleita: Dilma Rousseff, do PT. Agora, dos 13 candidatos ao cargo, quatro têm mulheres como vice: Ana Amélia (PP), vice de Geraldo Alckmin (PSDB); Kátia Abreu (PDT), vice de Ciro Gomes (PDT); Sônia Guajajara (PSOL), vice de Guilherme Boulos (PSOL); e Suelene Balduino (Patriota), vice do Cabo Daciolo (Patriota). E uma quinta mulher, Manuela D’Ávila (PCdoB), será a vice de Fernando Haddad (PT) assim que o TSE indeferir o registro da candidatura do ex-presidente Lula. Além deles, disputam a Presidência Marina Silva, da Rede, e Vera Lúcia, do PSTU.
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