O conteúdo desta página requer uma versão mais recente do Adobe Flash Player.

Obter Adobe Flash player

Teresina, PI
Domingo, 16
Dezembro de 2018

03/11/2018 - 07h47min

O feitiço contra o feiticeiro

 

Ilustração: Gerson Nascimento

A denúncia de que um grupo de empresários teria se unido para montar um esquema de distribuição de fake news pelo whatsapp em favor do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, esquentou a reta final da campanha. Os partidários da campanha de Fernando Haddad, do PT, que aparece em grande desvantagem nas pesquisas, enxergaram na acusação uma janela para questionar judicialmente e tentar a impugnar a candidatura do capitão reformado do Exército. O próprio whatsapp adiantou-se e excluiu contas ligadas ao candidato do PSL, inclusive de seu filho, Flávio Bolsonaro. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aceitou investigar o caso. Nada irá evoluir agora. Talvez só no próximo ano, servindo de sombra para um provável futuro governo Bolsonaro. Mas essa é outra história. O problema é que há uma certa dose de hipocrisia na indignação petista. Em eleições anteriores, e mesmo nesta, o partido fazia o uso indevido das redes sociais. Até se deparar com Bolsonaro como adversário, o PT era quem se valia do whatsapp e de outros canais na internet para difamar sem qualquer pudor ou freio moral e espalhar mentiras deslavadas sobre os concorrentes. Ou seja, o partido acostumado a acusar os outros do que ele mesmo faz foi precursor das fake news.

Em 2014, o PT usou irregularmente as ferramentas da internet para se beneficiar na eleição. Naquele ano, Dilma Rousseff disputava a reeleição e estava tecnicamente empatada com o senador Aécio Neves (MG), candidato do PSDB, nas pesquisas de intenção de voto. Dilma então contou com a ajuda de nada menos que 509 robôs que replicaram links dos sites de campanha principalmente com ataques a Aécio. A maioria das mensagens em massa era repassada pelo Facebook e Twitter. O serviço patrocinado contribuiu decisivamente para que ela se sagrasse vitoriosa.

A interferência de robôs, perfis falsos e outras artimanhas é uma adaptação
ao mundo virtual da prática da velha política de manipular as eleições

 

Na vanguarda das notícias falsas

Dilma, aliás, esteve na vanguarda das notícias falsas, antes mesmo delas receberem o epíteto de fake news. Quatro anos antes, na sua primeira eleição presidencial, ela já lançava mão do serviço sujo executado no submundo da internet. Em 2010, uma conta na antiga rede social Orkut no nome de Armando Santiago Jr. foi denunciada. O suposto Armando Santiago Jr. ocupava-se de espalhar textos em defesa de Dilma. Deu o que falar. Ele passava o dia inteiro atrás da tela de computador espalhando textos com ataques ao seu adversário, o senador José Serra, do PSDB. No seu perfil, Armando se descrevia como um homem de 56 anos, casado e morador de Poços de Caldas, Minas Gerais. Seu perfil no Orkut chamava-se “Seja Dita Verdade”. Na verdade, porém, era tudo mentira. Armando não existia. Era um perfil falso. Era o alter ego de quatro pessoas que recebiam até R$ 4 mil mensais entre maio e outubro de 2010 para trabalhar no submundo virtual em favor de Dilma.

Mas tudo mudou quando mudaram também os atores envolvidos. Tão logo surgiu a denúncia contra a candidatura de Bolsonaro, o PT ingressou com uma representação junto ao TSE. Nela, os advogados de Haddad pediram impugnação da candidatura do PSL e uma punição contra o empresário Luciano Hang, dono da loja de departamento Havan. Ele teria sido um dos contratantes das empresas de tecnologia para envio de mensagens anti-PT. Hang nega, mas a desculpa para uma provável derrota já está pronta. O Brasil gosta mesmo de brincar com fogo.

 

Difamação eletrônica

A representação deve entrar na fila de outras 40 que também esperam pela apreciação da corte eleitoral. De acordo com fontes do TSE, o tribunal recebeu 400 representações contra irregularidades na campanha deste ano. Destas, 40 dizem respeito à propagação de fake news. Não é necessário muito exercício mental para adivinhar contra quem pesa uma das denúncias. Sim, o PT. Mais precisamente contra a campanha à reeleição do governador do Piauí, Wellington Dias. Segundo a denúncia, a influenciadora digital Paula Holanda diz ter sido procurada por uma representante da agência de marketing digital Lajoy para participar do que chamou de uma “ação de militância política para a esquerda”, com foco nas campanhas de Dias, da senadora e presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), e do candidato ao governo de São Paulo, Luiz Marinho.

 

Em 2014, Dilma usou 509 robôs para disseminar noticias
falsas contra Aécio. Em 2010, a vítima foi Serra

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas aponta que a interferência de robôs, perfis falsos e outras artimanhas nas eleições é uma adaptação ao mundo virtual de uma prática velha adotada pela política tradicional. A difamação e a manipulação sempre foram tristes ferramentas do debate político. O que hoje se conseguiu foi a multiplicação da eficiência dessas ferramentas. Contas automatizadas que permitem a massificação de postagens se converteram em armas poderosíssimas de manipulação em grande escala. Segundo o estudo, o mal virou epidemia especialmente após 2014. Na época, o PT inoculou o vírus. Que agora virou-se contra Haddad.